quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O FAUSTO DE ITAQUERA - I




O Fausto de Itaquera

 

 João do Gueto

 

 

Ele nasceu na noite mais fria do inverno em 1963 quando a cidade de São Paulo era muito mais gélida.

 Seu Pedro e dona Rita tentavam mais uma vez a vinda de um menino. Incansável trabalhador e grande amante de sua patroa disseram a si mesmo só desistir depois da chegada de um varão, sabendo que seria um pretinho de olhos azuis. Filho da mistura de índios, negros baianos e italianos da Sicília.

Herói da periferia com um destino traçado pelos deuses seria ele mais uma criança com a missão de ensinar aos velhos trazendo revolução e renovação.

Viria ele da periferia lá

Pelos lados Leste mais precisamente Itaquera, pedra velha ou polida em Tupi-Guarani.

Este lugar longe de tudo mais perto do mar seria seu referencial para visualizar bem mais longe podendo assim alçar vôo em direção a cidade em busca do conhecimento e de sua própria autonomia.

Em direção à cidade a procura de sua liberdade, teria uma breve mais intensa pousada em uma Universidade que sonhava com suas piscinas desde criança.

Sempre pressentiu ter um grande poder já que um dia descobriu bastar pensar ou visualizar seus mais poderosos pensamentos que tais idéias tomavam forma e tornavam-se a mais pura realidade.

 Amava os pássaros e seus animais de estimação. E sonhando com as nuvens dava a elas cores e tamanhos em seus desenhos traçados e rabiscados em pleno no ar.

 E assim seus sonhos mais aéreos passavam a ser a mais inesperada realidade.

 

II- SETE ANOS SE PASSARAM E A CRIANÇA TORNOU-SE UM MENINO EM PLENA E NO AUGE DE UMA DITADURA MILITAR.

 

Cresceu correndo atrás de passarinhos e tendo como sua obrigação diária dada pela sua amada mãezinha, acordar cedo e ir ao galinheiro que ficava no findo do de seu quintal.

Passaram-se sete anos após aquela noite fria de um inverno de São Paulo e mais precisamente, seis anos e meio, ou melhor, o ano de 1970.

Por ser criança nunca compreendeu o que significava viver e crescer e sem saber ou se importar com o que acontecia por aqueles anos que eram o auge de um regime político autoritário e militarista.

Seu pequeno e feliz universo se restringia a um bairro distante da periferia de São Paulo, onde as ruas ainda eram de terra a iluminação também era natural a noite era iluminada somente em períodos de lua cheia ou de um céu estrelado.

Após a janta lá pelas sete horas da noite, saía para a calçada e sentava-se ao lado do seu fiel e companheiro zorrinho um lindo, pequeno artista de circo e além de tudo isso seu mais lindo cachorrinho. Tentava com o dedo indicador contar aquelas infinitas estrelas a iluminar o céu e suas idéias. Quando via uma estrela cadente e isto por aquela época era muito freqüente, pedia a Deus que realizasse seu mais secreto pedido, nunca mais envelhecer ou crescer, pois sabia que a tudo isso iria perder.

Alguns pedidos se realizaram outros foram esquecidos, mas infelizmente chegara à hora de entrar na escola e acabar com a sua mais feliz atividade pela manhã, alimentar as galinhas e recolher ovos quando acontecia de ter e olha que eram quase todos os dias.

O ano deste fatídico acontecimento foi mais precisamente o último da década de 1960.

 

Não existia por aqueles distantes rincões da periferia ainda uma escola pública, mas no fim da Ru Caicó e depois de uma subida quase montanhesa, chegava ao seu destino escolar, a Igreja católica Apostólica e Romana de Santo Antonio de Cidade Patriarca uma vila distante ao menos 30 quilômetro do centro de São Paulo e em um tempo que o trem era nosso único e principal transporte público.

Aprendeu a ler e a conhecer as primeiras letras e palavras, dentro de uma igreja. E também nesta mesma conheceu e viu em aparecimento coletivo e uma troca de favores a sua primeira buceta. Bucetinha sim era o que viu, mas por ser a primeira a gente nunca se esquece.

Seu nome era Cristina e sua pele morena de um corpo de uma menina franzina, mas maliciosa como ninguém. Desafiou a uma roda de meninos para que todos durante o recreio mostrassem os seus pintinhos e ela em troca e agradecimento revelaria a todos nós virgens e curiosos meninos, o milagre do aparecimento da primeira e inesquecível xoxota.

Enquanto todos estavam a buscar e abrirem a sua lancheira, metodicamente penduradas pela a irmã do padre Álvaro ao mesmo tempo naquele instante quase mágico nos foi revelado à imagem daquela a que todos nós, a partir daquele momento não mais inocente meninos, jamais esquecemos e passado agora mais de 40 anos, ainda buscamos e perseguimos uma perereca tão linda, lisinha, gordinha e no lugar víamos todos os dias nosso pintinho e nos deparamos com a fresta a que todos os homens mulheres passamos e sonhamos um dia voltar.

Durante os anos sessenta do século passado nosso antigo, prefeito e depois governador de nosso rico e conservador Estado de São Paulo, o digníssimo prefeito e que até chegar à presidência, o alcaide Senhor Janio Quadros de Oliveira, advogado e grande orador do largo São Francisco e dizem alguns companheiros seus da faculdade de Direito do Largo São Francisco- USP que era um brilhante e quase hipnótico orador de sua turma. Seus inesquecíveis discursos se deram em cima ou quase trepado como um macaco versado em oratória e a arte da retórica, mas sua voz ditada e cantada de uma forma engraçada mais ao mesmo tempo com um alto poder de erudição e dizem que também alguns golinhos de cachaça da boa antes de discursar em plena praça, dava a ele um grande poder e assim se valeu.

Janio quando governo criou no município de São a guarda municipal na época eram chamados os policiais da guarda metropolitana de guardas belos e por acaso o meu ti Osvaldo, irmão mais novo de meu José, conseguiu ingressar e passar também a partir daí, o meu tio preferido e meu ídolo de criança, pois jurei a meu pai e a minha mãe também se tornar um dia polícia e de preferência ter também aquela linda farda azul marinho, um apito e um quepe pra lá de bonito e principalmente, um reluzente apito, prateado e que aguarda sempre a chegado meu tio Osvaldo e quando avistava a subir aquelas ruas de São Paulo de quarenta ambos atrás, de terra, sem iluminação elétrica, esgoto ou asfalto, de prontidão a avistá-lo e minha área do quintal que me dava uma excelente vista, corria para encontrá-lo, pois quando entravamos no quintal de casa, sempre me deixava assoprá-lo em um estrondoso sibilo. Eis o guarda belo que também um dia foi meu herói.